sábado, 11 de abril de 2009

O Faraó, a princesa e o Estado

Marco Davi de Oliveira
“Naquela mesma noite o faraó mandou chamar a Moisés e Arão e lhes disse: “Saiam imediatamente do meio do meu povo, vocês e os israelitas! Vão prestar culto ao Senhor, como vocês pediram. Levem os seus rebanhos, como tinham dito, e abençoem a mim também”. Os egípcios pressionavam o povo para que se apressasse em sair do país, dizendo: “Todos nós morreremos!”. Então o povo tomou a massa de pão ainda sem fermento e a carregou nos ombros, nas amassadeiras embrulhadas em suas roupas. Os israelitas obedecerem á ordem de Moises e pediram aos egípcios objetos de prata e de ouro, bem como roupas. O Senhor concedeu ao povo uma disposição favorável da parte dos egípcios, de modo que lhes davam o que pediam; assim eles despojaram os egípcios. Os israelitas foram de Ramassés até Sucote. Havia cerca de seiscentos mil homens a pé, além de mulheres e crianças. Grande multidão de estrangeiros de todo tipo seguiu com eles, além de grandes rebanhos, tanto de bois como de ovelhas e cabras.” (Êxodo 12:31 – 38)A saga da libertação dos escravos hebreus do Egito nos dá algumas possibilidades de refletirmos sobre as políticas de ações afirmativas que precisam de implantação urgente do Brasil. Aprendemos com esta história qual devia ter sido a postura dos governantes após a libertação dos escravos e também como deve ser a postura do Estado brasileiro junto aos que experimentam a conseqüência de uma “libertação” sem estrutura e sem respeito aos que estavam sendo libertos.Aqui no Brasil a chamada abolição que se transformou num ato de protesto, foi feita sem consciência alguma. Sem a percepção da necessidade de se construir condições adequadas para que toda a população negra não sofresse com os anos posteriores. Aqui a princesa Isabel agiu com se quisesse mostrar que também tinha força e, acompanhada por um bando de gente que não tinham a devida visão do futuro, promulga a abolição sem que antes aja um planejamento adequado que visasse o bem – estar dos negros e negras.Como seria bom se a princesa, que não experimentara nenhuma praga, tivesse lido com atenção e aprendido as lições com o faraó!No contexto da história que lemos Deus chama Moisés para que fosse o líder do povo hebreu e, em nome Dele, libertasse o povo da escravidão egípcia. Os judeus ficaram cerca de quatrocentos e trinta anos escravos no Egito. Através das dez pragas que foram a maneira de Deus manifestar o seu juízo, o povo foi liberto. O coração de faraó estava endurecido e ele não reconhecia a necessidade de libertar os escravizados. Isso é ponto singular nos opressores. Eles não reconhecem o mal que estão fazendo. Foi assim com os governantes da época da escravidão no Brasil. Pena que não tivemos as pragas aqui para apressar o processo de libertação.O que quero ressaltar aqui, não é, propriamente, a história do êxodo hebreu, mas, sim, o seu final. Pois a história da libertação do povo hebreu sob o comando do negro Moisés nos ajuda a compreender a nossa realidade histórica e também o nosso futuro como povo negro neste país.O texto que lemos mostra a postura de Moisés em relação a maneira que o povo devia sair do Egito. Parte do texto diz: ”os israelitas obedeceram á ordem de Moisés e pediram os egípcios objetos de prata e ouro, bem como roupas...”. Notamos a preocupação do líder Moisés com o futuro do povo. Pois ele orienta aos Hebreus pedirem, e nesse caso, ordenarem aos egípcios que dessem condições para que o povo pudesse continuar a sua história.Outra coisa interessante no texto é que os egípcios já estavam dispostos a salvaguardarem os direitos dos israelitas. E isso foi uma intervenção de Deus nas mentes e nos corações daquela gente. Os israelitas tinham o favor dos egípcios. Vemos que Deus age na História do seu povo como também já está agindo em favor do povo negro do Brasil.As políticas de ações afirmativas precisam ter mão dupla. Devem atingir o povo negro que foi a parte da população brasileira mais sacrificada no país, mas também devem atingir aos “estrangeiros”. O texto bíblico mostra que junto dos israelitas estavam muitos estrangeiros “de todo o tipo”, ou seja, de várias nações que acompanhavam o povo de Deus.Gosto muito da palavra do faraó quando diz: “Vão prestar culto ao Senhor, como vocês pediram. Levem os seus rebanhos, como tinham dito, e abençoem a mim também”. Aqui notamos que o povo ficou livre para prestar culto a Deus. O povo estava sendo liberto para adorar aquele que era e é o Senhor do universo, o Senhor da história, o Deus dos deuses.Interessante que o povo estava livre para cultuar, para ter a sua religiosidade sem que fosse oprimido por isto. É óbvio que não sou adepto de religiões chamadas, e sempre vou chamá-las assim, de religiões de matizes africanas. Mas, no Brasil ainda falta, não incentivo, pois nenhuma religião por mais “cultural” que possa parecer deve ter incentivo seja fiscal, econômico ou governamental para existir, liberdade para que o povo se expresse em sua religiosidade. Para os negros de matizes africanas falta, talvez, reconhecimento como religiões brasileiras e mais liberdade de culto. Já para os negros que fizeram opção pelo cristianismo de matiz, também, africana, falta o respeito por parte dos adeptos das chamadas religiões de matizes africanas para com a opção por Cristo ressureto que reina para sempre.As políticas de ações afirmativas são caminhos para que o governo brasileiro tenha uma postura mais favorável em relação ao povo negro da nação. Ter a postura de faraó é melhor que ter a postura da princesa. Espero que isso ocorra o mais rápido possível, pois sei que Deus age na história e creio que está agindo na história deste país. Portanto, o quanto antes a justiça através das reparações forem colocadas em prática no Brasil, mais longe o país fica distante das manifestações que evidenciem a exigência divina. Quanto mais rápido os negros e negras forem incluídos no processo social, político e econômico, mas o Brasil estará sob a misericórdia de Deus e não sob o juízo dele. Pois, como diz a bíblia: “Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo”. (Hebreus 10:31).

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