quinta-feira, 7 de maio de 2009

Para significar a leitura e a escrita


*Marcelo Cunha Bueno
Lembro-me do filme lindíssimo de Walter Salles, "Abril despedaçado", em que o menino lia seu livro de ponta-cabeça... Lembro-me também do poeta Manoel de Barros dizer que sua neta, ao ler o livro de ponta-cabeça, estava deslendo! Coisa linda!Alfabetização me causa dois sentimentos. O primeiro é bem chato, já que se trata de uma luta. As escolas podem caminhar por muitas possibilidades no que diz respeito à alfabetização. Há um debate entre duas concepções de alfabetização que estão deixando familiares, professores e crianças totalmente perdidos. É uma luta por poder, por validade quase que científica que não ajuda em nada, pois sabemos que, ao final do caminho, o que importa é que as crianças leiam e escrevam, mas, principalmente, tenham acesso a livros, a bons livros!O caminho da alfabetização começa com as crianças ainda pequenas. Nomes, placas, jornais, revistas e tudo o que tiver letras é importante para que entrem em contato com mais essa possibilidade de expressão e comunicação. Isso é fundamental, por exemplo, para que a criança perceba que sua escrita ou a escrita dos outros possuem alguma finalidade, para comunicar coisas... Se não tiver isso, provavelmente escreverá por obrigação, para prestar contas, e será incapaz de entender o próprio texto.Mas também dentro desse caminho das letras, temos a "decifração" do código. Decifrar o código da língua é entender essa melodia das letras formando palavras e poesias...Bem, para essa etapa, cada escola começa quando julgar melhor. Geralmente, as crianças são alfabetizadas até os seis anos de idade, no que antes chamávamos de pré e, hoje, é conhecido como primeiro ano do Ensino Fundamental.Alfabetizar-se não é fácil. Nem pode ser... pois entramos em um outro mundo. Imaginem: as crianças acabaram de começar a se comunicar oralmente, a representar o que sentem e querem por meio de desenhos e, de repente, vem essa cobrança da escrita. É muito duro para elas! Por isso, a escola deve ir com calma, procurando sempre individualizar a coisa. Não adianta fazer um plano de alfabetização para a sala. Não vai funcionar! Cada um aprende de uma forma, em um momento. O que não pode significar que a escola deva ficar esperando ter vontade ou esperar o trem das letras passar. A escola deve desafiar sempre e ajudar a criança a superar essas etapas. Isso é seriedade: singularizar e desafiar!Ler e escrever não se aprende da noite para o dia. Leva um tempo do tamanho do Ensino Fundamental. Nesse caminho, dúvidas, medos, escrever espelhado, de ponta-cabeça, com letras trocadas, faz parte da aquisição da escrita. Quem não se lembra de quando falava as palavras faltando letras, ou quando falava pato ao invés de prato? Pois é, com a escrita, acontece a mesma coisa! As escolas precisam se lembrar disso também! É muito fácil, diante das dificuldades de escrita e leitura das crianças, a escola dizer que há um problema de aprendizagem. Procuro enxergar as coisas como um problema de "ensinagem", de ensino. Como sempre digo, é muito fácil colocar toda a responsabilidade na criança e na família. A escola está totalmente envolvida e é totalmente responsável também por caminhar por essa estrada.Mas há um lado bom, contrário daquela sensação chata de alfabetização. Um lado de descobertas, de desafios, de re-apropriações dos espaços, de re-significações do mundo. A criança descobre e acessa um novo mundo. Dá nomes, inventa palavras, faz o outro ler suas invenções. Poetiza a escrita com suas letras invertidas e seus aglutinamentos... Diria que essa alfabetização se dá por trans-palavras. Arriscar-se pelo universo da escrita é um desafio enorme. Significar sensações, emoções, idéias por palavras é sinal de que a criança quer ter o mundo para si. Quando é podada desse direito, com correções excessivas, com trocas absurdas (do tipo "se você não terminar de copiar, vai ficar sem lanche"), a criança deixa de tentar e passa a reagir à escrita... escrever por escrever. Gosto de ver as crianças tentando formar palavras, frases, tentando ler suas idéias. É muito gostoso para os professores participarem desse momento. Criança aprende a escrever quando as letras deixam de ter o peso das palavras que querem significar!!!Conteúdo se ensina com conversas, com discussões, com outros e muitos registros que não precisam ser somente escritos. Saber ler e escrever tem relação também com interpretar, sentir, relacionar, ampliar o repertório e o mundo da escrita. Aprende-se a ler e a escrever quando a criança lê ou folheia um livro, quando a criança escuta uma história do professor, quando reconhece os nomes dos produtos em suas caixas e pacotes. Ensinar a ler e a escrever, decifrar o código, é obrigação da escola. A família deve se interar da forma como a escola trabalha essas questões. Alfabetizar é um trabalho conjunto entre casa e escola. Escrever e ler é um caminho cultural, é produção e incorporação de culturas, não um processo de ordem científica... não nesse caso. Afinal, mais difícil do que produzir leituras e escritas culturais é desler o que as palavras querem dizer. Esse é o bom leitor e escritor, alguém que vá além do que dizem as palavras...
*Marcelo Cunha Bueno é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender, em São Paulo

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